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eu olho pra calçada e minha cabeça volta no dia em que eu chorei encostada num poste e você veio até aqui de cara boba corpo quente e o isqueiro que eu deixei no bolso da tua blusa
e isso não é mais uma daquelas memórias mórbidas que eu prometo baixo esquecer. que até hoje eu não sei explicar no que é que a gente interliga
minha amiga sempre diz que pode ser o prazer. eu também. até dar fim do dia e eu sentir uma puta saudade da sua risada pesada e do seu rock expressivo ecoando pelos cantos da parede.
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queria correr da minha rotina monótona e ser capaz de apreciar algo fora desse quarto com as paredes rosas que eu mesma pintei e agora detesto. eu sei que fui algoz e te trouxe tormento, mas eu também quero acreditar que fui clemente e misericordiosa algum momento. talvez tenha existido reciprocidade e isso não me permita obscurecer, mas eu sei: quando o assunto é nós, estou sendo vencida pelo cansaço.
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não sei quando devo te contar que eu sempre vou embora
e deixo tudo
e deixo todos
é fácil pra mim mudar de cidade, de faculdade, de sotaque, de cerveja preferida.
meu único vínculo é com meus devaneios.
meu lar é meu delírio.
meu ninho é o abandono.
mas olhar pra você assim de lado, como os olhos beijando os meus, sorrindo como a criança de seis anos na foto da sua geladeira enquanto sinto a paciência das suas mãos envolvendo as minhas que em nada crê, me faz desejar que eu nunca mais queira ir embora.
mas eu ainda quero. faz parte da parte do meu signo que não sai no jornal.
eu quero dar o fora e quero que você venha comigo
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eu tô escondida aqui na laje chorando e fumando meu cigarro
o meu avô morreu
eu segurei o choro o dia todo porque cara, eu não posso me dar o luxo de chorar. eu sinto tua falta. falta do seu sorriso, do seu cabelo ondulado e da tua voz me acordando de manhã.
você disse que me amava, mas foi embora
tu nem se despediu
você arrumou as suas coisas e apenas foi embora. eu chorei porque tu tinha ido e ainda quis acreditar que você iria voltar porque você me disse tanto que eu era boa. alguém que merecia ser amada.
quando você decidiu que não queria ficar?
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quando eu te peço pra ver além da bondade que trancei pra te abraçar, o que me sobra?
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se coisa ruim faz a gente crescer
e todo esse clichê
já nem caibo mais na casa
não caibo mais aqui
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eu queria desaparecer por uns tempos porque não sei se o lugar que eu ocupo ainda me cabe. porque eu me machuquei para me impor limites em algumas partes e nas outras eu me expandi tanto que não reconheço mais algo que já fui.
(Fonte: venus-canceriana)
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eu odeio a forma como as pessoas tentam invocar o amor próprio como se qualquer encontro consigo mesmo resolvesse a porra toda
cara
fala sério
não é tão simples
dependendo do quanto você foi ensinado a se odiar
dependendo do quão fundo é o poço
não é qualquer coisinha que vai te salvar
nem qualquer adjetivo
sabe?eu não desenvolvi amor próprio. eu desenvolvi a necessidade de sobreviver e com um esforço do caralho eu descobri que sobreviver também significava estar razoavelmente bem mentalmente
eu tô falando de um respeito medíocre pela própria existência pra garantir uma vida. não A vida, mas uma vida. aquela em que você só sente vontade de não existir de vez em quando.
e ai meu Deus como eu sinto que às vezes banalizam esse processo
como eu sinto que tem gente se virando do avesso pra não virar uma estatística enquanto tudo parece tão fácil na internetsão exercícios - os meus próprios - tentando falar de conforto quando eu sei
eu realmente sei
que existe mais coisa separando o ser asqueroso que você enxerga do ser humano absurdamente normal que você é
porque, assim, eu vou ser bem sincera
às vezes ser um ser humano absurdamente normal salva sua vida
porque extraordinária, forte e maravilhosa são só palavras
eu não me alimento delas
elas não equilibram meus hormônios
elas não viram dinheiro pra ser aplicado em terapia
elas não viram ouvidos que tentam simplesmente entender que não é FÁCIL CARALHO
elas só dizem. adjetivos não entram, cara. eles repousam na sua primeira camada
e às vezes não precisamos dissoquanta gente você preferiu elogiar a ouvir? quantas vezes você disse a alguém que ela precisava se amar, quantas vezes você citou alguma autora pra tentar mostrar seu card de percepções sobre alguém
sendo que você só precisaria ter ficado em silêncio tentando entender que seu buquê de “you are” não ganha de nenhum “I feel”é a hipocrisia minha, nossa, de todos os dias.
a gente não salva ninguém, só marca no checklist diário que demos apoio a quem precisou
mas você só disse que era uma coluna, caraa gente ainda tem que sustentar sozinho toda nossa falta de amor e necessidade de amor
e outras
fodidas
neuras
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algumas coisas queimam mais dentro da gente quando não são ditas
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você não sabe o que eu sou capaz de fazer com alguns copos de vodca e nem de como eu gosto de dançar no escuro porque ninguém me vê e é quando eu sou capaz de me soltar e isso é tão contraditório porque a minha vida toda eu desejei ser vista. tu não sabe de como eu me senti nos últimos dias porque eu estive longe por saber que preciso desesperadamente de você, nem que seja da sua amizade, do seu carinho. por não ter certeza de que ainda podemos ser amigos depois das coisas que aconteceram e eu ter te amado.
eu não quero mais te olhar e encarar como se você fosse o último copo de água no meio do deserto e eu sei que eu beberia de uma vez e então de novo a sede viria e eu não quero te enxergar como se você fosse o único homem a quem eu posso amar porque isso é uma grande mentira.